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O Riso

Por Hugo de Azevedo - Editora Quadrante

O Riso

O Riso

É natural que não consideremos o riso uma coisa séria. Ele próprio se encarrega de ridicularizar-se. O grave cavalheiro que de repente abre as mandíbulas, atira para trás o crânio, lança as mãos à barriga e solta uma cascata de vogais estrídulas... A solene madame que de súbito estende o bico de orelha a orelha, mostra duas fileiras de favas brancas e se põe a cacarejar... Mas, ai de nós se nos faltasse o riso! Nem queremos pensar. Que funeral seria a vida!

Passamos grande parte da existência a rir. Quase não sabemos conversar sem alguma brincadeira. Logo, mesmo que não tomemos o riso a sério, não podemos negar-lhe alguma importância.

Será perda de tempo? Fraqueza humana? Simples sinal distintivo deste pitecantropo? Para que serve rir? Que sentido e utilidade terá na vida humana e na vida de um cristão?

E, antes de mais, por que rimos?

Li há bastantes anos o célebre ensaio de Bergson sobre o problema, mas confesso que não me lembro senão da piada mais breve que ele conhecia, aliás de humor negro. Um cego pergunta a um paralítico: – “Como vai?” E responde o paralítico: – “Como vê...”

Faz-me lembrar um breve episódio, verdadeiro, acontecido há pouco num colégio. Um original professor lembrou-se de propor o seguinte tema de redação: “Que acha desta pergunta?” Os alunos, desconcertados, falaram do que puderam... Mas um deles escreveu simplesmente, com esfuziante aplauso do mestre: “Que acha desta resposta?”

Pois é. Quando ouvimos uma piada, não resistimos a contar outra... Por que será que rimos e gostamos de fazer rir?

Há pessoas com tão pouco sentido de humor que querem ver no riso apenas um fenômeno fisiológico. Tenho diante de mim um recorte do Daily Telegraph (13-IX-83). Guardei-o para divertir-me de vez em quando. Diz o articulista de Nova York que “a universal sabedoria popular de que convém usar o sorriso como um guarda-chuva contra as tempestades (da vida) está perto de receber um poderoso apoio das pesquisas científicas”! E explica: a ilustre Universidade da Califórnia descobriu que o riso é algo mais do que uma “reordenação dos músculos faciais”. Quem diria! Será então que os pesquisadores universitários descobriram finalmente a alma ou, pelo menos, a “psique”? Não senhor: apenas que a tal “reordenação” muscular produz efeitos emocionais muito peculiares no sistema nervoso!...

E o artigo continua no mesmo tom “científico”, que não vale a pena explanar. Ao lado, uma outra notícia, vinda de Glasgow: proibiu-se o sr. Mach, funcionário dos Correios, de usar máscara contra fumo de tabaco no escritório...

Quem não vê os aspectos caricatos da vida? Tínhamos perguntado: por que rimos? Não seria melhor perguntarmo-nos: por que não rimos ainda mais?


O SENTIDO DE PERSPECTIVA

Rimos porque o mundo é cômico e nós o somos também. Chesterton queixava-se de que, sempre que escrevia cósmico, era certo e sabido que na tipografia o trocavam por cômico. Mas, no fundo, concordava: tudo o que é cósmico é cômico. Basta pensar na girafa, no avestruz, no hipopótamo... Ou em nós mesmos! Olhar-nos ao espelho e reparar nessa bola meio. amassada que trazemos em cima do pescoço, com dois abanos dum lado e doutro, mais dois pisca-piscas, mais o focinho esburacado... Nós, estes seres urbanos, encaixotados em cubos e cubículos, com gente a andar por cima de nós e outra gente por baixo...

Por que rimos? Porque somos seres extraterrestres. Nem mais, nem menos. Pelo corpo, somos daqui; pela alma, de fora. Se fôssemos só da terra, acharíamos tudo natural, sensaborão, anódino, como acontece com o caracol e a barata; mas, a nós, tudo nos é de certo modo estranho; não acabamos de habituar-nos totalmente a esta existência.

Por isso não acredito nos outros extraterrestres. Andam por aí às voltas, assistem ao nosso espetáculo, e não desatam a rir conosco? Então, ou não existem ou são tolos. E, para não os ofender, prefiro que não existam.

Extraterrestres somos nós. Não somos daqui. Tudo nos surpreende: a terra, o céu, os bichos, as estrelas, nós mesmos, esta curiosa existência que ora nos assusta, ora nos maravilha, ora nos diverte... E por quê? Porque somos seres inteligentes. Percebemos, por um lado, que a vida é coisa séria, “um negócio muito perigoso”, como dizia Guimarães Rosa; e, por outro, que é uma grande anedota, “uma história de doidos contada por um idiota”, na conhecida expressão de um personagem de Shakespeare. Quem só vê um destes aspectos está zarolho de entendimento, porque efetivamente a vida é ambas as coisas.

Quem não reconhecerá que somos grandes e minúsculos ao mesmo tempo? Existentes e sem razão de existir? Com aspirações infinitas e queda de cabelo? Imortais que se resfriam? Enfim, alma e corpo em unidade esquisitíssima? Terrestres como as galinhas e extraterrestres como os Anjos! Pela alma, com anseios de eternidade; pelo corpo, queremos feijoada...

A realidade tem de ser vista com ambos os olhos. Se falta um, perde-se perspectiva: acumulam-se as formas e as cores diante de nós, como se estivessem coladas umas às outras, num mesmo plano, e custa-nos imaginá-las. separadas no espaço, mais próximas ou mais distantes.

Algo de semelhante acontece com a inteligência: se não focaliza os vários aspectos da vida, dá a tudo igual importância e pouco entende dela. Ou toma tudo a sério, preocupando-se tanto com a ameaça nuclear como com o atraso do ônibus (e daí procedem esses terríveis maçantes que dramatizam tudo), ou leva tudo na brincadeira – e daí nascem os piadistas incorrigíveis, que só sabem responder com trocadilhos às questões mais transcendentes. Por sinal, os trágicos provocam riso, e os piadistas dão pena...

Pessoa normal será a pessoa com bom humor, com sentido das proporções, capaz de ver o côncavo e o convexo, o grandioso e o mesquinho, o profundo e o superficial. Talvez não saiba por que ri nalgumas circunstâncias, mas costuma acertar. Só há pouco tempo compreendi, por exemplo, a razão de ser do nosso riso espontâneo quando vemos um ilustre sujeito a estatelar-se no chão (desde que não se machuque muito...). Quem mo explicou foi certo personagem de uma peça de Eliot: é porque, de repente, vemos o sujeito transformar-se em objeto! A respeitável pessoa foi dominada pela lei da gravidade, e essa mistura e conversão de sujeito em coisa a rebolar é realmente surpreendente e cômica.

A propósito da gravidade, volto a citar Chesterton. Referindo-se à queda dos Anjos maus, diz ele que caíram justamente pela força da gravidade; tornaram-se tão graves, levaram-se tanto a sério que se despenharam em queda livre até ao inferno! Faltou-lhes a humildade do bom humor. Não aceitaram ser simples criaturas, com as inevitáveis limitações, apesar da sua grandeza; encheram-se de soberba, de auto-suficiência, de solenidade, e – zás! – despenharam-se no abismo!(...)

 

Hugo de Azevedo
Doutor em Direito Canônico e sacerdote, é autor de numerosos ensaios. Colabora habitualmente em vários jornais portugueses e vem desenvolvendo atualmente uma intensa atividade entre os estudantes universitários de Coimbra, onde reside.

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